terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CHÁ

- Talvez esta história não lhe agrade, mas foi algo que me ocorreu agora quando tomava o chá.
- Talvez o cheiro o tenha feito lembrar.
- É possível. No trem em que estava serviam um chá delicioso. Diferente deste, claro. Mas algo me fez lembrar...
- Deixe de rodeios e conte logo a história!
- Está bem! Estava tomando o trem que vai daqui para São Paulo, quando em meio a toda aquela confusão dos passageiros, apitos, senhoras gordas e baixinhas, homens engravatados com maletas executivas, deu-se aqui neste lugar uma cena que sobressaltou minha visão, assim como uma bela dose. Era um casal. Um casal lindo. Ela, com belíssimos traços - cabelos castanhos, olhos escuros, corpo delicado. Ele, um rapaz deveras bem apessoado, cabelos igualmente escuros. Conversavam na plataforma. Eu via algo de especial neles - havia algo de melancólico... Pausa para mais um gole de chá!
- Sim, e então?
- Então, com o passar dos... Minutos?... Segundos? Não sei bem, sabe, foi algo diferente; começaram a ficar com as feições enérgicas, com a fala alterada. Então percebi que brigavam, provavelmente por um motivo tolo - afinal, eram apenas jovens... Nova pausa para acrescentar um gole no chá!
- E então, acabou?
- Não, a cena foi tão marcante que, mesmo depois do trem partir, fiquei pensando no porquê da briga. Saindo do idílico apaixonado para o nervosismo em tão pouco espaço de tempo; achei interessante.
- E então?
- E então o quê?
- Já acabou a história?
- Já, oras!
- E...?
Cala-se, olha bem para o companheiro narrador, olha para dentro da xícara de chá, dá com os ombros em tom de descaso. Grande gole no chá quente, que o faz lacrimejar. Dá graças a Deus pela medicina de sua época ser uma porcaria. Logo estaria com os vermes, livre de moribundos nostálgicos apreciadores de Eça de Queiroz.

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