terça-feira, 4 de janeiro de 2011

GRAVATA

É isso que acontece quando um casamento chega ao fim. É isso que acontece com uma família despedaçada. Tudo começou bem, eu fazia faculdade, ela também. Conhecemos-nos, nos apaixonamos e, por fim, nos casamos. No começo passamos um pouco de dificuldade, mas tudo se acertou depois. Era sempre assim. Um pouco de dificuldade no princípio para depois tudo se acertar. Na minha vida isso sempre aconteceu. Minha mãe biológica era péssima e me batia muito quando era pequeno. Minha vida era um inferno. Até que um dia nosso vizinho descobriu e contou tudo à polícia. Fui adotado e minha mãe foi pra cadeia, ou pelo menos foi o que me contaram a vida toda. Nunca conheci meu pai. À medida do possível aconteceu o melhor. Era sempre assim, ou quase sempre. O mesmo aconteceu quando minha esposa e eu resolvemos que a família iria crescer. Ela não engravidava de forma alguma, tentamos muitas e muitas vezes. Fizemos testes e mais testes, fizemos tudo. E mais uma vez no final deu tudo certo. Nosso filho nasceu pesando 3200g, saudável e tudo parecia muito bem. Com o tempo ele foi crescendo e ficando um meninão lindo. Minha esposa e eu estávamos orgulhosos. A notícia chegou numa sexta-feira. Após ele reclamar de dores de cabeça, levamos o menino para fazer alguns exames e esperávamos o resultado ansiosamente. Ele chegou. Câncer dentro daquela cabecinha inocente. Câncer. Câncer que não dá pra curar. Perde-se muito tempo e energia tendo esperança pra não conseguir. Esse era um caso sem esperança, podia-se ler isso nos olhos dos médicos. Ele não tinha chance. Nosso pequeno filho, o filho que esperei a vida toda para poder educar, para poder dar o que não tive por completo. Minha esposa começou a se entristecer a tal ponto que adoeceu. Veja a minha situação, eu, um pai esforçado, que passou por todas as dificuldades que um ser humano poderia passar. Meu filho com câncer no cérebro e nenhuma esperança de cura. E minha mulher entrando em depressão. Tudo na vida tem um limite. É difícil começar tudo de novo sempre. No final dá certo. Mas começar tudo de novo me parece difícil demais. Não quero e não agüento mais começar do zero. Foi muito difícil chegar até aqui. E depois ainda temos todos os problemas psicológicos. Os meus problemas e traumas eu conheço bem, mas assim que essa criança morresse, esse pedaço nosso morresse, teria que lidar com os meus problemas e com os problemas dela. Minha querida, porém frágil, esposa. Não sei se conseguiria recomeçar com todo esse peso. Eu sou peso demais pra mim mesmo. E eles não me permitiriam um novo começo. Mas agora está tudo se acertando. São 07:30 da manhã, já tomei café da manhã, minha esposa não vive mais aqui e o menino já foi se encontrar com nosso criador. Acabo de despedir-me deles. Ainda me doem as costas, ainda não consigo tirar a terra das unhas, as ferramentas ainda estão de molho para saírem as manchas. Tudo passa tudo se resolve menos nossas dificuldades mais sérias. E uma delas é uma família despedaçada e um nó de gravata que eu nunca aprendi a fazer sozinho. Mas tudo começa difícil e no final... No final eu acerto.

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